
Fernando Nevado
Árbitro vencedor do Troféu “João Adónis” em entrevista ao jornal NOVA GUARDA
“Vamos fazer mais uma época”
As pessoas não têm prazos de validade. Muito menos no futebol. E Fernando Nevado, não fez mais do que confirmar essa teoria. Considerado o árbitro mais regular pelo Jornal Nova Guarda, Nevado, natural de Foz Côa, não se escondeu das questões optando uma postura semelhante aquela que adopta dento das quatro linhas: seguro, sereno e frontal. Aos 45 anos Fernando Nevado garante que vai continuar pelo menos mais uma época.
Nova Guarda (NG) – O facto de ser um árbitro experiente, com conhecimento profundo do futebol distrital, ajuda-o na análise instantânea que faz aos lances?
Fernando Nevado (FN) - Claro que a experiência adquirida, enquanto jogador e também como árbitro assistente dos quadros nacionais, tem sido muito útil na minha carreira.
NG – Este foi o último ano do Fernando Nevado enquanto árbitro, ou vai continuar nos campos do distrito da Guarda pelo menos mais uma época?
FN - Estamos a pensar seriamente em continuar. Na época passada, já no final, os meus colegas pensaram em deixar a arbitragem. Por mais que me custasse teria que respeitar a decisão deles e pensar que seria a última época. Voltamos a falar, depois das férias, e decidimos fazer mais uma época. Depois disso, logo se vê.
NG – O que é que ainda o motiva para continuar na arbitragem?
FN – Essencialmente é o gosto que tenho pela arbitragem e pelo futebol. O que sinto quando estou dentro de um campo de futebol é o que mais me motiva a continuar.
NG - Considera que esta época o Fernando Nevado foi mesmo o melhor árbitro do distrital?
FN – Sim. Que me desculpem os meus colegas de arbitragem, mas esta época foi excelente para a minha equipa. Trabalhámos muito para que tudo fosse perfeito. O Concelho de Arbitragem, e os próprios observadores, partilham da mesma opinião, até porque obtive o 1º lugar na classificação oficial da Associação de Futebol da Guarda.
NG – Na sua óptica quais foram os factores que mais lhe favoreceram para que tivesse uma época tão positiva?
FN – Comecei a trabalhar logo no início da época para atingir esse objectivo. Depois, houve uma série de factores e pontuações, que fui obtendo juntamente com a minha equipa, que fizeram com que eu achasse que tinha capacidade para atingir o 1º lugar. E com bastante trabalho no dia-a-dia consegui fazer uma grande época.
NG – Considera que se tivesse tido outras condições podia ter chegado a árbitro dos principais escalões do futebol português?
FN - Sim. Quando entrei na arbitragem em 1994, como assistente de Daniel Soares, tinha o objectivo de ir muito mais longe. Mas, por vezes, as coisas não correm como nós gostaríamos.
NG – Como é que define a experiência de apitar nos campeonatos nacionais?
FN – Não tenho grande experiência como árbitro nos campeonatos nacionais, até porque sempre fui assistente do Daniel Soares. Apesar disso, deu para observar e aprender bastante uma vez que trabalhámos muito nessa época.
NG – Que diferenças é que aponta entre apitar nos nacionais ou nos distritais?
FN – Claro que o campeonato nacional é muito diferente do distrital, embora, em termos de arbitragem, eu considere que todos os jogos são importantes, e é por isso procuro sempre dar o meu melhor, sendo correcto e justo com tudo e todos. Mas, pelo que vi, considero que nos campeonatos nacionais, havia mais competitividade e o futebol é muito mais rápido, além das condições para os árbitros também serem muito melhores.
NG – Para a realizar uma boa época é necessário estar bem preparado física e psicologicamente. Ao nível da preparação física, qual é o tipo de treinos é que adopta?
FN - Psicologicamente estou sempre bem, e isso devo-o, em grande parte, à família que me proporciona uma vida estável. Ao nível físico posso dizer que treino diariamente, corro e faço algum exercício no ginásio. Mas também posso acrescentar que levo uma vida regrada, não cometendo exageros de todas as espécies.
NG – Qual foi o jogo mais complicado de dirigir na temporada que findou?
FN - Foi o jogo Soito - Guarda Desportiva.
NG – E o mais fácil?
FN – Acabou por ser a final da Taça de Honra da Associação de Futebol da Guarda entre o Vila Cortês – Gouveia, porque o intervenientes acabaram por ajudar muito.
NG – Acha que os jogadores ainda discutem muito, ou a mentalidade deles já está a mudar?
FN - Penso que os jogadores já não discutem tanto, mas, nesse aspecto, eu também não facilito porque exijo respeito e trato todos por igual.
NG – Que opinião tem sobre o estado da arbitragem no distrito da Guarda?
FN - Penso que a arbitragem na Guarda tem vindo a melhor muito nos últimos anos, e não será por acaso que temos tido mais árbitros nos campeonatos nacionais, o que transmite mais saber e experiência.
NG – Considera que em termos de valores/qualidade, temos árbitros capaz de ombrear com os colegas de outros distritos?
FN - Sim, considero que os árbitros da Guarda, se lhes derem condições e oportunidades, são tão bons como os outros.
NG – Financeiramente compensa ser-se árbitro?
FN - Não. Eu tenho o meu emprego e ando na arbitragem por gosto.
NG – A Associação de Futebol da Guarda já liquidou as dívidas com os árbitros referentes à temporada 2008/2009?
FN - Sim, está tudo pago.
NG – Houve alguma tensão entre os árbitros e o presidente do Conselho de Arbitragem (CA). Neste momento, como é que são as relações dos árbitros com o presidente do CA da Associação de Futebol da Guarda?
FN - Pessoalmente nunca tive problemas com o Conselho de Arbitragem. Mantenho uma relação cordial e aberta. Respeito para ser respeitado. Mas, mesmo que tivesse algum tipo de problemas este não seria o local e a forma correcta de os expor.
NG – O que é que acha que é necessário para ser-se árbitro?
FN - O principal é gostar de futebol e de arbitragem. Depois, é preciso ter certos atributos, uns inatos e outros que se vão adquirindo com o tempo, como a seriedade, calma e coragem. Ter conhecimento profundo das leis de jogo, e uma condição física sempre em alta, também são factores importantes. Depois como tudo na vida é preciso trabalhar muito e possuir espírito de sacrifício.
NG – É fácil lidar com todos os insultos que lhe são dirigidos durante noventa minutos?
FN – No início não é fácil. Mas, com o tempo vamo-nos habituando, e como estamos concentrados na nossa tarefa (já por si árdua) não ligamos.
NG – Qual foi o momento que mais o marcou na arbitragem?
FN - O facto de ter sido assistente num jogo da Divisão de Honra foi um dos momentos mais marcantes. Outro aspecto marcante foi ter arbitrado a minha primeira final da Taça de Honra, entre Vila Cortês e São Romão, na época 2005/2006.
NG - Tem algum ritual ou alguma superstição quando se está a preparar para apitar um jogo? Qual?
FN - Não tenho nenhum ritual nem superstição espiritual. Procuro concentrar-me o mais possível para executar as minhas tarefas preparatórias do jogo com calma.
NG – Apesar de uma longa carreira na arbitragem distrital, esta é a primeira vez que é distinguido, pelo Jornal Nova Guarda, como melhor árbitro do campeonato distrital. A quem é que dedica este prémio?
FN - Este prémio é dedicado à minha família (esposa e filhas), pois foram elas as mais sacrificadas com as minhas ausências nos fins-de-semana, não só nesta época, mas ao longo de todos estes anos de arbitragem. Sei que não estive presente, em certos momentos em que devia ter estado, e é por isso que lhes dedico esta conquista como prova do meu amor por elas. Também dedico este prémio a todos aqueles que de forma directa ou indirecta me ajudaram ao longo da minha carreira.
Por: André Sousa Martins
