quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mais uma Época

Fernando Nevado

Árbitro vencedor do Troféu “João Adónis” em entrevista ao jornal NOVA GUARDA

“Vamos fazer mais uma época”

As pessoas não têm prazos de validade. Muito menos no futebol. E Fernando Nevado, não fez mais do que confirmar essa teoria. Considerado o árbitro mais regular pelo Jornal Nova Guarda, Nevado, natural de Foz Côa, não se escondeu das questões optando uma postura semelhante aquela que adopta dento das quatro linhas: seguro, sereno e frontal. Aos 45 anos Fernando Nevado garante que vai continuar pelo menos mais uma época.

Nova Guarda (NG) – O facto de ser um árbitro experiente, com conhecimento profundo do futebol distrital, ajuda-o na análise instantânea que faz aos lances?

Fernando Nevado (FN) - Claro que a experiência adquirida, enquanto jogador e também como árbitro assistente dos quadros nacionais, tem sido muito útil na minha carreira.

NG – Este foi o último ano do Fernando Nevado enquanto árbitro, ou vai continuar nos campos do distrito da Guarda pelo menos mais uma época?

FN - Estamos a pensar seriamente em continuar. Na época passada, já no final, os meus colegas pensaram em deixar a arbitragem. Por mais que me custasse teria que respeitar a decisão deles e pensar que seria a última época. Voltamos a falar, depois das férias, e decidimos fazer mais uma época. Depois disso, logo se vê.

NG – O que é que ainda o motiva para continuar na arbitragem?

FN – Essencialmente é o gosto que tenho pela arbitragem e pelo futebol. O que sinto quando estou dentro de um campo de futebol é o que mais me motiva a continuar.

NG - Considera que esta época o Fernando Nevado foi mesmo o melhor árbitro do distrital?

FN – Sim. Que me desculpem os meus colegas de arbitragem, mas esta época foi excelente para a minha equipa. Trabalhámos muito para que tudo fosse perfeito. O Concelho de Arbitragem, e os próprios observadores, partilham da mesma opinião, até porque obtive o 1º lugar na classificação oficial da Associação de Futebol da Guarda.

NG – Na sua óptica quais foram os factores que mais lhe favoreceram para que tivesse uma época tão positiva?

FN – Comecei a trabalhar logo no início da época para atingir esse objectivo. Depois, houve uma série de factores e pontuações, que fui obtendo juntamente com a minha equipa, que fizeram com que eu achasse que tinha capacidade para atingir o 1º lugar. E com bastante trabalho no dia-a-dia consegui fazer uma grande época.

NG – Considera que se tivesse tido outras condições podia ter chegado a árbitro dos principais escalões do futebol português?

FN - Sim. Quando entrei na arbitragem em 1994, como assistente de Daniel Soares, tinha o objectivo de ir muito mais longe. Mas, por vezes, as coisas não correm como nós gostaríamos.

NG – Como é que define a experiência de apitar nos campeonatos nacionais?

FN – Não tenho grande experiência como árbitro nos campeonatos nacionais, até porque sempre fui assistente do Daniel Soares. Apesar disso, deu para observar e aprender bastante uma vez que trabalhámos muito nessa época.

NG – Que diferenças é que aponta entre apitar nos nacionais ou nos distritais?

FN – Claro que o campeonato nacional é muito diferente do distrital, embora, em termos de arbitragem, eu considere que todos os jogos são importantes, e é por isso procuro sempre dar o meu melhor, sendo correcto e justo com tudo e todos. Mas, pelo que vi, considero que nos campeonatos nacionais, havia mais competitividade e o futebol é muito mais rápido, além das condições para os árbitros também serem muito melhores.

NG – Para a realizar uma boa época é necessário estar bem preparado física e psicologicamente. Ao nível da preparação física, qual é o tipo de treinos é que adopta?

FN - Psicologicamente estou sempre bem, e isso devo-o, em grande parte, à família que me proporciona uma vida estável. Ao nível físico posso dizer que treino diariamente, corro e faço algum exercício no ginásio. Mas também posso acrescentar que levo uma vida regrada, não cometendo exageros de todas as espécies.

NG – Qual foi o jogo mais complicado de dirigir na temporada que findou?

FN - Foi o jogo Soito - Guarda Desportiva.

NG – E o mais fácil?

FN – Acabou por ser a final da Taça de Honra da Associação de Futebol da Guarda entre o Vila Cortês – Gouveia, porque o intervenientes acabaram por ajudar muito.

NG – Acha que os jogadores ainda discutem muito, ou a mentalidade deles já está a mudar?

FN - Penso que os jogadores já não discutem tanto, mas, nesse aspecto, eu também não facilito porque exijo respeito e trato todos por igual.

NG – Que opinião tem sobre o estado da arbitragem no distrito da Guarda?

FN - Penso que a arbitragem na Guarda tem vindo a melhor muito nos últimos anos, e não será por acaso que temos tido mais árbitros nos campeonatos nacionais, o que transmite mais saber e experiência.

NG – Considera que em termos de valores/qualidade, temos árbitros capaz de ombrear com os colegas de outros distritos?

FN - Sim, considero que os árbitros da Guarda, se lhes derem condições e oportunidades, são tão bons como os outros.

NG – Financeiramente compensa ser-se árbitro?

FN - Não. Eu tenho o meu emprego e ando na arbitragem por gosto.

NG – A Associação de Futebol da Guarda já liquidou as dívidas com os árbitros referentes à temporada 2008/2009?

FN - Sim, está tudo pago.

NG – Houve alguma tensão entre os árbitros e o presidente do Conselho de Arbitragem (CA). Neste momento, como é que são as relações dos árbitros com o presidente do CA da Associação de Futebol da Guarda?

FN - Pessoalmente nunca tive problemas com o Conselho de Arbitragem. Mantenho uma relação cordial e aberta. Respeito para ser respeitado. Mas, mesmo que tivesse algum tipo de problemas este não seria o local e a forma correcta de os expor.

NG – O que é que acha que é necessário para ser-se árbitro?

FN - O principal é gostar de futebol e de arbitragem. Depois, é preciso ter certos atributos, uns inatos e outros que se vão adquirindo com o tempo, como a seriedade, calma e coragem. Ter conhecimento profundo das leis de jogo, e uma condição física sempre em alta, também são factores importantes. Depois como tudo na vida é preciso trabalhar muito e possuir espírito de sacrifício.

NG – É fácil lidar com todos os insultos que lhe são dirigidos durante noventa minutos?

FN – No início não é fácil. Mas, com o tempo vamo-nos habituando, e como estamos concentrados na nossa tarefa (já por si árdua) não ligamos.

NG – Qual foi o momento que mais o marcou na arbitragem?

FN - O facto de ter sido assistente num jogo da Divisão de Honra foi um dos momentos mais marcantes. Outro aspecto marcante foi ter arbitrado a minha primeira final da Taça de Honra, entre Vila Cortês e São Romão, na época 2005/2006.

NG - Tem algum ritual ou alguma superstição quando se está a preparar para apitar um jogo? Qual?

FN - Não tenho nenhum ritual nem superstição espiritual. Procuro concentrar-me o mais possível para executar as minhas tarefas preparatórias do jogo com calma.

NG – Apesar de uma longa carreira na arbitragem distrital, esta é a primeira vez que é distinguido, pelo Jornal Nova Guarda, como melhor árbitro do campeonato distrital. A quem é que dedica este prémio?

FN - Este prémio é dedicado à minha família (esposa e filhas), pois foram elas as mais sacrificadas com as minhas ausências nos fins-de-semana, não só nesta época, mas ao longo de todos estes anos de arbitragem. Sei que não estive presente, em certos momentos em que devia ter estado, e é por isso que lhes dedico esta conquista como prova do meu amor por elas. Também dedico este prémio a todos aqueles que de forma directa ou indirecta me ajudaram ao longo da minha carreira.

Por: André Sousa Martins

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